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TURISMO EQUESTRE FORA DO RADAR DA OFERTA TURÍSTICA

Portugal reúne condições para se afirmar como destino internacional de Turismo Equestre de elevado valor acrescentado. No entanto, a ausência de uma estratégia integrada de promoção, investimento e comercialização continua a limitar o desenvolvimento de um setor com capacidade para gerar receitas, criar emprego qualificado e dinamizar os territórios do interior.

A Golegã, reconhecida como Capital do Cavalo, volta a estar no centro das atenções do mundo equestre. Entre 6 e 15 de novembro, recebe a 50.ª Feira Nacional do Cavalo, a 27.ª Feira Internacional do Cavalo e a tradicional Feira de São Martinho com um vasto programa.

A designação da Golegã como Capital do Cavalo ficou associada ao percurso do antigo presidente da Câmara Municipal da Golegã, José Veiga Maltez. Mais recentemente, a inscrição da Feira Nacional do Cavalo no Inventário Nacional do Património Cultural Imaterial, publicada em Diário da República de 2 de outubro de 2026. O atual presidente da autarquia, António Costa Camilo, anunciou um novo objetivo: a candidatura da feira a Património Mundial da UNESCO.

O reconhecimento reforça a importância cultural e económica do universo equestre português. Mas coloca também uma questão incontornável: estará Portugal a aproveitar verdadeiramente o potencial de uma indústria que vai muito além da criação de cavalos e da organização de feiras, por mais emblemáticas que sejam as ativações da Golegã ou Ponte de Lima?

Uma indústria de elevado valor económico

A indústria equestre abrange uma extensa cadeia de atividades: criação e comercialização de cavalos, serviços veterinários, formação, competições desportivas, construção e reparação de atrelagens, transportes especializados, produção de equipamentos e serviços associados à hotelaria e turismo. Inclui uma logística internacional exigente, com transporte de equídeos em veículos adaptados a aviões Cargo equipados com boxes na cabine.

Segundo números atribuídos à European Horse Network, o setor equestre na União Europeia representa um volume de negócios anual próximo dos 100 mil milhões de euros, incluindo as experiências turísticas.

Em Portugal, valores divulgados no âmbito do Horse Economic Forum, realizado em Alter do Chão, apontam para um impacto económico direto e indireto na ordem dos 2,7 mil milhões de euros. Ao Turismo Equestre é atribuída uma contribuição próxima dos 29 milhões de euros. No concelho de Alter do Chão, o impacto económico associado ao cavalo Lusitano terá sido estimado em mais de seis milhões de euros.

Um exemplo particularmente relevante é a Coudelaria Alter Real, fundada em 1748 por iniciativa de D. João V. Antigo património da Casa de Bragança, constitui atualmente uma unidade agropecuária do Estado, concessionada à Companhia das Lezírias, tem como missão a criação de cavalos Puro-sangue Lusitano da linhagem Alter Real.

Alter conta cerca de 300 a 400 cavalos e uma eguada de ventre estimada em aproximadamente 60 animais. A Coudelaria representa um património histórico e genético de enorme valor. A integração do Vila Galé Collection Alter Real associa uma tradição da criação equina à hotelaria, ao lazer e à descoberta do património rural. É um destino com condições para atrair visitantes ao longo de todo o ano, em férias e fins de semana.

Para além das receitas diretas, esta indústria gera exportações, equilibra a balança de pagamentos, gera emprego especializado. Veterinários, ferradores, maiorais, campinos, equitadores, tratadores, integrando uma cadeia de valor que preserva saberes e sabores tradicionais da cozinha portuguesa, mantém atividades económicas ligadas ao território.

BTL: uma oportunidade perdida para o Turismo Equestre

A última edição daBetter Tourism Lisbon Travel Market (BTL), Bolsa de Turismo de Lisboa, levantou dúvidas sobre a visibilidade atribuída ao Turismo Equestre na promoção da oferta turística nacional.

O catálogo da BTL’2025 apresentava uma diversidade de segmentos, Turismo Religioso, Meeting Industry, LGBTI+, Wellness, Cultura e Enoturismo, iniciativas de networking, encontros empresariais com compradores internacionais. Contudo, não continha identificada qualquer presença de expositores dedicados ao Turismo Equestre, como a Associação Nacional do Turismo Equestre (ANTE).

Importa perceber se esta ausência resultou dos custos de participação, de opções estratégicas de promoção ou de outras condicionantes. A questão é pertinente: estarão os principais certames de promoção turística nacional a proporcionar condições de acesso e representação adequadas a todos os segmentos relevantes da oferta portuguesa? Os custos de participação podem constituir um obstáculo para associações, pequenas empresas e operadores especializados. Justifica-se, por isso, uma reflexão sobre os modelos de representação e promoção, de forma a garantir que produtos turísticos com potencial internacional conseguem chegar aos agentes de viagens, operadores especializados, compradores, imprensa do trade nacional e internacional. Não bastará estar presente nas feiras para profissionais, será necessário assegurar capacidade de distribuição, comercialização e criação de oportunidades de negócio.

Portugal tem oferta. Falta a projeção internacional.

O projeto Cavalos na Areia, na Comporta, beneficiou de uma exposição mediática significativa, a divulgação viral de imagens de Madonna a cavalo na praia. Este exemplo demonstrou a capacidade de atrair a atenção internacional para experiências equestres desenvolvidas em contacto com a natureza. De norte a sul existem projetos e equipamentos com condições para integrar uma estratégia nacional de Turismo Equestre. Exemplos como o Centro Equestre do Vale do Lima, Ponte de Lima, o Centro Hípico da Quinta da Marinha, com as suas 250 boxes, o Picadeiro d’Arrábida, Azeitão. No Algarve, chama a atenção o crescimento da Feira do Cavalo de Estoi, integrada na programação regional. O desafio está em passar de uma oferta dispersa para um produto turístico organizado, com identidade própria, promoção conjunta e canais de comercialização em mercados internacionais.

O exemplo espanhol: uma oportunidade a estudar

Espanha, um case study que oferece exemplos de valorização económica e turística do setor equestre. O Turismo Equestre, de acordo com valores divulgados, como experiências de lazer associadas aos cavalos geram receitas anuais próximas dos 1.800 milhões de euros, com uma despesa média diária por visitante estimada em cerca de 300 euros.

No conjunto, a indústria equestre espanhola é avaliada em aproximadamente 7.390 milhões de euros, correspondentes a cerca de 0,5% do Produto Interno Bruto. São-lhe atribuídos 150 mil postos de trabalho diretos e uma população superior a 722 mil equídeos. Estes indicadores, que devem ser comparados tendo em conta as respetivas metodologias, mostram a capacidade do setor para dinamizar territórios rurais, estimular a hotelaria e a restauração e gerar procura turística fora dos principais centros urbanos.

A experiência espanhola demonstra também a importância de articular atividades de lazer, percursos rurais, alojamento adaptado, património cultural e promoção internacional. Esta integração permite a construção de produtos turísticos diferenciados, distribuindo benefícios económicos por regiões longe do litoral cosmopolita.

A marca Dom Quixote vende experiências

Um dos exemplos mais interessantes da promoção espanhola consiste em transformar referências literárias e culturais em experiências turísticas comercializáveis. As aventuras de Dom Quixote de La Mancha, personagem criada por Miguel de Cervantes, oferecem matéria-prima para cerca de sessenta itinerários temáticos que cruzam paisagem, história, literatura e atividades equestres. O cliente vive uma emoção que transporta o imaginário literário para os caminhos da região.

Portugal tem igualmente património, história, tradição e uma raça equina de reconhecimento internacional, que ajudou Portugal nas Conquistas, Guerras Peninsulares e expansão, para construir narrativas turística diferenciadora: o cavalo Lusitano. A combinação entre património equestre, paisagens, gastronomia, Cultura e as condições climáticas favoráveis permitem desenvolver programas ao longo de boa parte do ano, captando visitantes interessados em experiências personalizadas de valor acrescentado. No fundo, importa desenvolver capacidades de transformar recursos existentes em produtos turísticos comercializáveis.

Uma solução de parceria público-privada

Transformar o Turismo Equestre num produto turístico competitivo exige uma estratégia concertada entre entidades públicas e privadas. Ministério da Economia, Secretaria de Estado do Turismo, Turismo de Portugal, Entidades Regionais de Turismo, ANTE, Associação Portuguesa das Agências de Viagens e Turismo (APAVT), Federação Equestre Portuguesa e outros agentes económicos do setor, numa agenda de trabalho conjunto, definição de objetivos e execução de um plano de ação.

Uma das prioridades deverá ser o de fóruns profissionais dedicados ao Turismo Equestre, integrados na Feira Nacional do Cavalo da Golegã. Este espaço poderá funcionar como plataforma de contactos entre criadores, operadores turísticos, unidades hoteleiras, agências de viagens, Operadores Turísticos e DMC (Destination Management Company) especializados no planeamento de destinos.

Em paralelo, importa projetar a presença do Turismo Equestre em certames estratégicos, B2B como a FITUR, Madrid, SICAB — Salón Internacional del Caballo, Sevilha, Arabian Travel Market, Dubai, a IFTM Top Resa, Paris ITB Berlin ou o World Travel Market, Londres. A participação deverá privilegiar reuniões empresariais, apresentação de produtos e pacotes turísticos, estabelecimento de contactos comerciais com operadores especializados e ações dirigidas à imprensa internacional.

É igualmente fundamental desenvolver, em articulação com o Turismo do Alentejo e os restantes parceiros regionais, materiais promocionais multilingues, plataformas de reserva que integrem alojamento e experiências equestres, bem como sistemas de certificação e garantia de qualidade.

A Feira Nacional do Cavalo reúne anualmente criadores, profissionais, associações, empresas e visitantes, criando condições únicas para promover o Turismo Equestre como produto turístico nacional. A localização da Golegã, o futuro Vila Gale Collection Tejo na secular Quinta da Cardiga, um investimento de 20 milhões de euros que está a recuperar património histórico que data da fundação de Portugal e da Ordem dos Templários, uma proximidade a recursos naturais como a Reserva Natural do Paul do Boquilobo permitem desenvolver programas de féria, visitas short break, estadias temáticas com cavalos, atraentes para emissores do Norte e Cento da Europa com condições climáticas desfavoráveis, durante os meses frios.

A Feira Nacional do Cavalo, poderá funcionar como laboratório para experiências noutras regiões do país. Em falta está uma estratégia nacional, que articule estes recursos, assegure a sua promoção internacional e transforme iniciativas dispersas numa oferta turística comercializável. O Turismo Equestre pode diversificar a oferta nacional, atrair visitantes com maior capacidade de despesa, prolongar a época turística, criar oportunidades de emprego e investimento, deixar uma pegada de desenvolvimento no interior.

A questão já não é saber se Portugal tem condições para se afirmar neste mercado. É perceber quanto tempo mais vai demorar a transformar esse potencial numa verdadeira oportunidade económica e turística.

Coudelaria de Alter

Tapada do Arneiro

7440-152 Alter do Chão

Telefone: (+351) 245 610 060

E-mail: geral@alterreal.pt

Vila Galé Collection Alter Real ★ ★ ★ ★

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